domingo, 22 de junho de 2014

- Bom dia Sr. Luigi – digo ao porteiro da escola.
- Bom dia Pedro – responde ainda atordoado com o primeiro aluno chegando na escola.
Fico um tempo sentado nos bancos esperando os outros alunos que começam a chegar aos poucos.
- Ei vermelho!  - Grita Ed. (Ganhei esse apelido dos amigos por causa do meu cabelo ruivo)
- E daí Ed! (Eduardo Dante é meu amigo desde o jardim de infância)
- Cara, vamos jogar daqui a 2 dias. Você precisa ir assistir.
- Claro! Não perderia por nada. (O time do Ed treina mesmo nas férias, começa o ano e eles não veem a hora de mostrar as novas jogadas que ensaiaram durante o verão).
- Beleza, depois do jogo, o time vai tomar um sorvete, você sabe que é meu convidado – disse enfaticamente em uma forma de intimação.
- Sim, eu apareço no jogo e depois tomamos sorvete – respondi animado.
            O Ed é nosso atacante do time de futebol, e sempre me convida para ir aos jogos, mesmo quando não são no ginásio da escola. Eu normalmente vou de bicicleta já que a cidade onde moramos é pequena e o deslocamento fica fácil. Além do mais não gosto de abusar dos meus avós toda a hora pedindo para me levar pra lá e pra cá de carro. Conquistei certa independência e a confiança deles não fazendo nenhuma bobagem e ficando longe de encrencas, apesar de ter apenas 15 anos.
            O primeiro dia de aulas é sempre a mesma coisa, todo mundo vai para o auditório ouvir as orientações gerais passadas pelo diretor Norton, uma lenda na escola, ex-capitão do time de futebol, advogado aposentado, um cara que se faz de durão, mas tem um coração mole.
            Entrando no auditório, respirando com outras 300 crianças ao mesmo tempo, eu me pego pensando novamente no pesadelo, e nem dou bola para o blá, blá, blá... fico repassando o sonho na minha cabeça, tentando atentar para cada detalhe, e nada. O lugar do sonho de hoje parecia familiar, como seu eu já tivesse estado lá. De repente eu me transporto para lá em pensamento, me vejo parado naquela esquina, como que em terceira pessoa eu analiso cada metro, centímetro, milímetro, eu vejo a temível criatura se aproximando, pronta para dar o bote.
            - Vermelho... Vermelho, está tudo bem? – uma voz suave dizia.
            - Ahm... ah... oi Ana. Sim sim, está tudo bem – respondi.
            - E vo..você? – disse gaguejando.
            - Siiiiiiiiimmmmm, como sempre... – respondeu ela animada. 
– Gente, por favor prestem atenção! – interrompeu nossa professora de Matemática, a Srta. Linda e acabando com nosso curto papo.
No ano passado, o oitavo ano, eu finalmente consegui superar minha paixonite por Ana, um sentimento que perdurava desde o jardim de infância. Ana era uma encantadora menina de cabelos louros encaracolados e olhos castanhos profundos para qualquer um se perder, incluindo todos os meninos da minha turma. Agora eu só pensava nela como amiga, mas o primeiro amor sempre balança com a gente (e eu acho que sempre vai balançar).
            O diretor finalmente tinha terminado o discurso de boas vindas, o qual não prestei atenção a nenhuma palavra, e íamos na direção de nossa sala, os meninos em um grupinho e as meninas em outro. Ao chegar na sala, pareceu automático, todos sentando nos mesmos lugares que já estão acostumados a sentar por anos. Minha carteira é a terceira da fila encostada na parede oposta à porta, bem dos lados da janela. Nesta escola não trocamos de sala, temos um horário e matérias fixas, o professor é que vem se desloca entre uma turma e outra. Somos em 28 alunos e eu consigo me dar bem com quase todo o mundo, (você sabe, sempre tem aqueles que são meio rabugentos ou que por algum motivo inexplicavelmente absurdo não vão com a sua cara, tipo o Gildo, um garoto que sempre pega no meu pé sem motivo aparente).
Ana sentava na minha frente, e gosto de conversar com ela. Aplicada nos estudos, quer ser médica. Agora ela já usava os cabelos mais lisos e um louro um pouco mais escuro com mechas, mas continuava arrancando suspiros de muitos colegas. Vez por outra me pego olhando para ela, mas não é mais aquele sentimento de criança, a princesa do meu conto de fadas  (pelo menos eu acho que não).
A aula agora era de gramática. Não que eu esteja empolgado, mas gosto de aprender, então me esforço. Normalmente consigo passar nas matérias sem muito problema, mas isso não quer dizer que eu não tenha que estudar muito pra isso. Presto atenção nas aulas e vou te contar um segredo: isso já é metade do caminho.
            A professora de Gramática era a Dona Corália, ela tentava conter o zum zum zum da turma que voltara de férias cheias de novidades, na verdade uma tarefa desafiadora.
            Passaram-se alguns minutos e ela desistiu.
            Ok pessoal – vocês querem falar sobre as férias, então preparem uma redação de no mínimo 15 linhas sobre suas atividades nas férias.
            Reclamações e o zum zum zum foi acalmando enquanto todos pegávamos nosso material.

Estava me preparando para iniciar a redação, quando o Diretor abre a porta da sala e anda em direção a professora. Logo atrás dele uma menina, tímida, olhando para o chão, comportamento típico de uma aluna nova. O diretor entrega a ficha da aluna para a professora e sai, sem falar uma palavra.
(CONTINUA...) 

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