sábado, 21 de junho de 2014

Capítulo 1 – Pesadelo

            Tenho que correr, eu não posso parar ou ele vai me alcançar. Apesar de não conseguir ver seu rosto eu sinto que tenho que continuar correndo, fugindo para o mais longe que puder dele. Uma voz baixa sussurra meu nome – Pedro – ela sopra maleficamente, eu tenho certeza que coisa boa não é, porque não parece nada sedutor, ao contrário é horripilante.
De repente, estou escondido nas sombras, sinto meu coração batendo acelerado, consigo ouvir minha respiração, mas também consigo ouvir o silêncio. Quando penso que finalmente o despistei, o silêncio se quebra e algo me ataca, vindo do nada – acordo com meu próprio grito, tremendo, encharcado de suor, tenso com o coração pulsante e ele não desacelera, parece que ainda estou naquele beco sendo atacado por uma criatura negra, cautelosa como uma sombra e arrebatadora como um tornado. Eu o chamo de Fôlegos.
            Isso é bem comum pra mim, aliás, eu tenho esses pesadelos todas as noites desde... bem desde sempre. É sempre a mesma criatura me perseguindo alucinadamente e o final é sempre o mesmo, nunca muda, não importa o lugar, apenas vejo o vulto e sou atacado. Fico sempre com a sensação que vou morrer. É estranho como nunca reuni coragem para enfrentar o monstro no meu próprio sonho, nunca consegui dominá-lo, antes sempre deixo o medo tomar conta das minhas ações e começo a correr.  Corro com todas as minhas forças, me escondo e ele sempre me acha.
            Normalmente não consigo mais dormir depois disso, fico olhando para o relógio até a hora de ir para escola. Exausto como sempre, tomo um banho para “acordar”, visto meu uniforme escolar vermelho com três listras brancas adidas, como um biscoito ou dois junto com um copo de achocolatado frio e vou para a escola.
Eu moro com meus avós, Antônio e Catarina. Eles não são realmente meus avós de sangue, na verdade eles me adotaram quando eu tinha apenas 2 anos.  Chamo-os de avós porque eles preferem que seja assim, afinal eles sempre me contaram que eu era adotado, que tinha pais biológicos e sempre deixaram claro que não queriam substituir meus pais de sangue. Além do fato de que eu tenho idade para ser neto deles, então parece mais apropriado chamá-los assim. Eu fui à realização de um sonho para eles porque eles perderam o único filho, Lucas,  que tiveram em um acidente de moto há uns 30 anos atrás, e como ele não casou e não teve filhos, eles achavam que nunca teriam um neto. Bem aqui estou eu, cumprindo esta tarefa mesmo sem o sangue deles. Apesar disso levo o sobrenome da família, Gallo.  Pedro Gallo, é assim que os professores me chamam, ou meus avós quando estão brabos, o resto do mundo prefere “Vermelho”, por conta do meu cabelo ruivo, um vermelho forte, vivo.
Sobre meus pais biológicos eu não sei muita coisa, na verdade nunca consegui nenhuma informação no orfanato, muito menos com meus avós, e sempre que toco nesse assunto eles desconversam. Tenho muita vontade de descobrir quem são e o que aconteceu para eu não estar com eles hoje. Eu só guardo um bilhete, que foi deixado junto comigo, na porta do um lar adotivo, quando eu tinha menos de um mês de vida, e que me dá esperança de um dia reencontrá-los.
Nascido no último dia 7.
Esta escolha não foi fácil, mas é a escolha certa.
No momento certo, voltaremos para a vida dele.

Essa é a única coisa concreta que eu sei sobre minhas origens, a data do meu nascimento: 07 de agosto, 15 anos atrás.
 Eu moro a uns cinco quarteirões da Escola, por isso sigo caminhando sozinho e o tal sonho nunca sai da minha cabeça. Às vezes fico matutando sobre o sonho, sobre o que significa eu sempre ter “esse” pesadelo em especial. Eu fico me perguntando se não é algum trauma de infância ou algo assim. Eu realmente não sei, nunca consegui concluir nada mesmo com essa fixação na cabeça.

            Hoje é o primeiro dia de aula do ano letivo, então desço, tomo um achocolatado e parto em direção à escola, que fica a uns 5 quarteirões da nossa casa. Vou caminhando ainda pensando no maldito sonho que me atormenta toda a noite.
(CONTINUA...)

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